Até aqui, de cá, tudo bem. Do lado de lá, ela reporta deslumbramento e cansaço, alternando, que o novo faz pipocarem os olhos e os pés até a mais completa exaustão. Ninguém falou de saudade — nem cá, nem lá —, e é natural que seja assim, nenhum reparo merece a saudade inda ausente nas conversas triviais onde ela me conta por onde andou e eu pergunto como tudo vai, se os holandeses são mesmo tão lindos assim. Em cada sinal que ela digita, veloz, antes de ser engolida pela madrugada, eu sinto o coração apaziguado porque sei que ela está feliz.
Porém, a essa altura, possivelmente já será inverno: o novo já não será tão novo assim, as noites serão longas e tudo será frio, muito frio, desesperadoramente frio para uma menina tupiniquim que se criou na aridez que é Brasília, onde até chove, mas passa tanto, tanto tempo sem chover, que a gente até esquece como é. Adaptadas as necessidades básicas, instalada a rotina mínima, é quando a segunda saudade poderá surgir, agora mais definida, corpulenta até, imiscuída no olhar talvez desinteressado sobre aquele carvalho centenário que a gente já viu mais de mil vezes, disfarçada na complicação da hora de lavar o cabelo, na preguiça de ir pra rua, já que chove tanto. Uma armadilha da qual é difícil de escapar.
Daqui, eu provavelmente estarei padecendo da falta que ela me faz em cada pequena coisa que eu fizer, vitimada pela virulência da segunda saudade, talvez refém da incredulidade que ainda ontem eu expressava enquanto repetia, ao telefone, numa conversa com minha irmã:
Marcela está morando em outro país.
Morando em outro país.
Mo-ran-do.
Ou-tro-pa-ís.
Marcela está morando em outro país!
Tantas palavras e meandros e volteios para dizer, simplesmente, que não obstante estar tão tão feliz por ela, eu ainda não acredito.
Acho, daqui, que ela também não.